Tony Stanco
24 de abril de 2001
Com a chegada da Internet na década de 1990, o mundo entrou na Era Intelectual. A Era Intelectual será substancialmente diferente da Era Industrial, porque várias das antigas premissas não são mais aplicáveis. Para a indústria de software, a maior alteração será que as corporações tradicionais não mais controlarão o desenvolvimento de software.
A Microsoft é atualmente a feroz criatura reinante indisputável do mundo dos dinossauros, e ela faz o barulho mais alto enquanto lança seu peso considerável ao redor para horror de todos os outros. Ela é sem dúvidas o Tyranossaurus Rex do desenvolvimento de software corporativo.
Mas aquela luz relampejante nos céus durante o meio dos anos 1990, que fez todos olharem extasiados, ainda não causou seu impacto total. Quando causar, o mundo será um lugar muito diferente, repleto de dinossauros de software corporativo mortos ou moribundos.
Antes do desenvolvimento do formato corporativo, famílias, ou grupos de famílias financiavam a maioria dos empreendimentos comerciais. Com a chegada da Era Industrial, no entanto, a habilidade financeira de fornecer os bens de capital exigidos (como para, por exemplo, companhias de estradas de ferro algum tempo mais tarde) estava além dos meios até das famílias mais ricas. A solução para este problema não era difícil de vislumbrar, e não demorou para as pessoas trazerem mais investidores para o empreendimento, cada uma suportando uma carga menor e mais gerenciável.
Embora este pensamento de primeiro nível resolvia um problema, ele criava outro primeiramente, pois, no início da era, todo mundo que investia era pessoalmente responsável por toda a companhia, mesmo que o grupo de gerenciamento tomasse todas as decisões por conta própria. Para resolver este problema de segundo nível, o conceito de responsabilidade limitada foi criado. Este conceito mudou a lei em vigor, e permitiu que investidores externos fossem responsabilizados apenas na extensão de seu investimento inicial. Com esta nova alteração legal, a estrutura básica do formato corporativo foi criada, e tem tido extremo sucesso desde então.
O que é importante lembrar sobre o formato corporativo, no entanto, é que ele foi inventado para um propósito muito específico - o financiamento de projetos de imenso capital que definiram a Era Industrial.
Como uma rápida verificação para entender que a Era Intelectual é bastante diferente da Era Industrial, pergunte-se quando foi a última vez que a Boeing, por exemplo, teve de se preocupar que um aeroplano competitivo, completamente funcional, pudesse surgir do nada, fruto de um bando de trabalhadores rebeldes sem nenhum capital? Agora repita a mesma pergunta, mas substitua Boeing por Microsoft e aeroplano por sistema operacional.
GNU/Linux e a comunidade internacional de software livre são uma sólida prova que as antigas regras industriais não são mais aplicáveis. Eles revelam que um time descentralizado de desenvolvedores ao redor do mundo trabalhando através da Internet e sem acesso aos recursos de capital de uma corporação pode trabalhar com um nível de eficiência superior ao da líder de software corporativo com 25 bilhões de dólares no banco.
Estas malformações ineficientes são tópicos familiares a todos na comunidade de software livre, e giram em torno da questão da "propriedade intelectual".
As características que definem a propriedade física são escassez e exclusão. Como tal, o uso de uma peça particular de propriedade por uma pessoa exclui o uso daquela propriedade por outra pessoa. Num mundo de escassez, a eficiência exige que a pessoa com o maior e melhor uso para a propriedade deva ganhar o uso exclusivo dela. Tal ordenação social é uma maneira muito racional para maximizar a saída num mundo restrito pela escassez física. De fato, organizar o mundo físico daquela maneira tem tido tanto sucesso que forneceu toda a infraestrutura física e riqueza material nos últimos 300 anos. Ela criou, desta maneira, a fundação para suportar a Era Intelectual na qual estamos entrando, e então, teve claramente seu lugar na história.
Mas apesar de seu sucesso passado, possui falhas lógicas para extender os princípios que funcionam com coisas físicas para coisas intelectuais. Isto porque as características que distinguem as coisas físicas (escassez e exclusão) não estão presentes nas coisas intelectuais, e, portanto, as razões básicas que suportam os antigos principios industriais não estão mais presentes.
Então, esta característica comunitária essencial dos produtos intelectuais é diametralmente oposta às características fundamentais dos produtos físicos. Enquanto que o compartilhamento cria eficiências nas perseguições intelectuais, o compartilhamento de propriedades físicas cria a "tragédia dos comuns" e as ineficiências de uso não ótimo observadas nos países comunistas do século passado. Portanto, produtos físicos e intelectuais devem ser tratados de maneira muito diferente, por causa destas diferenças em suas naturezas essenciais.
Advogados, políticos, investidores e corporações convenceram-se e a outros que se o código for compartilhado, ninguém será capaz de ganhar algum dinheiro dele (por exemplo, a infame 'Carta Aberta aos Hobbistas' de Bill Gates). Para tal, eles apoiaram e promoveram a idéia que software é como qualquer outro produto físico tradicional, e, portando, deve ser organizado, possuido e vendido como tal.
Para obter a aquiescência da comunidade de desenvolvedores, de cujo apoio eles precisam pois os desenvolvedores atualmente fazem toda a codificação, eles propuseram uma barganha Faustiana: "una-se a nós, mantenha o código que você desenvolve em segredo de seus colegas, e nós lhe pagaremos".
Esta é a exata barganha que Richard Stallman se opôs no início dos anos 1980, quando se recusou, e ao invés começou a contra-revolução com o projeto GNU e a GPL.
Foi esta barganha básica entre o corporativo eo desenvolvedor, aceita pela maioria dos desenvolvedores, que lançou as sementes da divisão, subjugo e ineficiência da indústria de software desde então. Como as corporações de software não poderiam ter escravizado a comunidade de desenvolvedores sem obediência deles, se os desenvolvedores tivessem permanecido juntos e resistido com mais resolução naquele tempo, os frutos das mentes dos desenvolvedores não seriam, em essência, propriedade corporativa agora.
Depois que as infraestruturas legais, comerciais e de investimentos passaram a apoiar este falso paradigma de desenvolvimento de software, levou um longo tempo antes que elas fossem forçadas a encarar as inconsistências fundamentais, e ineficiências resultantes, do paradigma proprietário novamente.
Como obra do destino, a Internet, GNU/Linux e o processo antitruste da Microsoft iriam todos convergir ao mesmo tempo para destacar tanto os problemas do modelo proprietário quanto as soluções disponíveis no software livre. O processo antitruste revelou quanto sofre a inovação quando uma corporação acumula tanto poder através da propriedade exclusiva de porções chave de código secreto. E o sucesso repentino e inesperado de GNU/Linux mostrou quão efetivo e eficiente é o desenvolvimento de software livre, mesmo sem dinheiro ou patrocínio corporativo. Isto então levanta questão óbvia: "Se software livre pode fazer tudo isso sem dinheiro, do que será capaz de fazer quando for apoiado geralmente e pago?"
A solução, obviamente, precisa ser consistente com os princípios da Era Intelectual e suportar o paradigma inclusivo geral implícito em todas as perseguições intelectuais. Para tanto, ela não pode incluir a estrutura corporativa tradicional, que se baseia demais em noções tradicionais de propriedade. Justamente como o formato corporativo que resolveu os problemas que o pressionavam em sua época, um novo formato comercial, portanto, é exigido para fornecer a nova infraestrutura organizacional para nossa nova era.
FreeDevelopers criou a estrutura 'Community is the Company' (CommCo) como uma solução democrática, internacional, abrangente à comunidade. Ela é fundamentalmente construida para ser consistente com o paradigma inclusivo da Era Intelectual. Será esta a resposta definitiva? Provavelmente não, mas pelo menos é um começo.
Com o mundo novamente procurando por uma solução apropriada, ele irá eventualmente encontrá-la. E quando o fizer, a Microsoft e o resto dos dinossauros do software corporativo proprietário serão mencionados apenas em livros de história como a folia no final do século 20 que atrasou o progresso tecnológico mundial em 25 anos.
Para informações sobre porque software também precisa de uma nova organização comercial por razões de moralidade e justiça, consulte a Declaration of Software Freedom
e Explicação de Porque FreeDevelopers Usou a Declaração de Independência dos Estados Unidos como um Modelo:
Is Software Law or Literature?.
COPYRIGHT (©) 2001 Tony Stanco
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Traduzido para o portugês por
Sidney Passos,
http://www.equacao.com.br, em 9 de agosto de 2001.